Nunca nutri um sentimento bonitinho por nenhum homem. Nunca descrevi ou escrevi pra algum homem de forma doce. Só escrevo sobre obsessão, desejo, tesão, vontade… mas nunca escrevi sobre algum sentimento puro ou nobre.
Até então eu vivi tendo relacionamentos casuais e nunca me importei muito com isso. Ele me busca três vezes por semana na escola, a gente pede alguma coisa gostosa, vê algum filme legal, ele abre a porta do carro, ele me beija na testa, me liga e sempre pergunta se senti saudades só pra ouvir o meu “não” e rir mais uma vez. Ele diz que eu não existo. Que eu sou louca demais. Ele até diz que tem medo de mim as vezes. Não falta emoção. A gente sempre se mete em alguma confusão divertida. Pra falar a verdade eu sempre meto a gente em alguma confusão divertida. Eu detesto suas regras, suas camisas e seus horários. Ele é mais velho, mais calmo, cheio de manias chatas e limites bobos e eu sou sua Lolita.
Eu quis tanto me apaixonar por ele. Até menti pra mim mesma fingindo que sentia alguma coisa especial. Qualquer coisinha. Um friozinho na barriga? Borboletinhas? Nada? Nadinha? Nada!
Acho que me cansei da superficialidade. Ele olha pra mim e diz que fizemos amor, mas como é que se faz amor sem se sentir amor?
Acho que está faltando alguma coisa aqui. Sempre volto pra casa me sentindo bem mais vazia e sozinha do que estava quando sai. Eu quis cumprir a missão do acaso. Quis criar o cenário perfeito. Quis dirigir a nossa história só pra garantir que seria perfeita.
Acontece que ontem, eu não sei exatamente quando, mas em algum momento olhando pra você eu percebi que não poderia continuar me enganando. Acho que foi um sopro de realidade. Não existe nada aqui além de duas pessoas completamente estranhas tentando ridiculamente se enganar e interpretar papeis que nunca serão seus. Não acho justo que percamos nosso tempo insistindo. Eu não queria admitir mas eu sei que nós nunca vamos nos encaixar. O que temos é por enganação. É por conveniência. É cura temporária pra solidão. Na verdade não é cura. O efeito não dura nem até o dia seguinte. É só uma ilusão medíocre.
Eu não sei exatamente o que faz duas pessoas se apaixonarem verdadeiramente, acho existe algum tipo de encanto ou algo que vai além da compreensão. Algo que não se pode forjar ou montar. Algo que não se simula. É algo único. Eu não sei o que é mas sei que não sinto.
Eu tentei de arduamente e sem sucesso manter isso, mas chega, sem mais simulação. Nós não estamos apaixonados. Isso não é real. Eu quero algo real! Algo fruto imperfeito do acaso. Algo que venha naturalmente. Algo que venha como um estalo, como uma brisa boa num dia quente de verão. Você é o personagem ideal para o meu filme, eu te escolhi, previ suas ações e escrevi suas falas mas esse roteiro é previsível demais. Não me satisfaz, não me surpreende e não me faz feliz. Quero deixar o tempo desempenhar o seu papel. Cansei de tentar dirigir meu filme. Vou deixar a vida dirigi-lo agora, sem mais tentar manipular ou me intrometer. Também não vou ficar esperando pelo personagem perfeito pra ser meu par romântico. Se ele tiver que vir, ele virá. Se eu tiver que esbarrar com ele por aí, vai acontecer. Se ele tiver que bater na minha porta, então ele baterá. E se eu tiver que viver uma história bonita como num bom filme de romance francês, assim será. Tem muita coisa mais importante na vida do que esperar pelo amor ideal, pelo arrepio constante, pela paixão avassaladora. Tem muita coisa lá fora. Quando for a hora, será! E acredito que será algo mágico, lindo, totalmente imprevisível e que valerá a pena. Será diferente de qualquer coisa que eu ousei imaginar ou idealizar. As melhores coisas da vida são as que não podemos controlar, explicar ou formular. São coisas que simplesmente acontecem.
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