E hoje eu acordei diferente. Eu acordei sentindo a imensa vontade de viver, de fazer algo novo, de plantar uma roseira, de correr pelo parque, de sujar meu vestido favorito, de respirar algo que não fosse a sua existência. Quando eu abri a janela eu percebi que o mundo continuava em movimento, que o tempo estava passando, que os pássaros estavam bem ali, cantando para mim como sempre. Durante meses eu não conseguia ouvi-los porque o único som que ecoava na minha cabeça era a tua voz. Eu não conseguia ver a grandeza do mundo porque estava presa dentro da imensidão do nosso sentimento. Eu perdi um por um dos meus sentidos aos poucos, na medida em que fui perdendo você. Será que é isso que o amor faz? Tira a importância de todas as outras coisas do mundo? Não sei, mas olhando para trás vejo que a minha vida estava paralisada, que os meus dias estavam se arrastando e parecia que tudo ao meu redor era você, tudo que eu via, sentia, ouvia, respirava, cantarolava tristemente era você. Eu percebi que eu vivi meses repleta de você. Sufocada por você.
E hoje ao acordar de repente o mundo não tinha mais a sua cara, a brisa não trazia mais o seu cheiro e o meu cobertor não simulava mais o seu aconchego. De repente eu acordei. De repente eu acordei desse delírio excelso.
Acredito que a vida tenha um despertador próprio. Numa manhã de uma terça-feira qualquer, sem motivo aparente, ele se manifesta para te dizer, meu bem, que chega de hibernar, que a primavera enfim chegou.
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